A tragédia no Parque Nacional Tanjung Puting

Orangotango de cara triste Orangotango no Parque Nacional Tanjung Puting. Foto: flickr/volanthevist (CC BY-NC-ND 2.0)

18 de dez de 2013

No Parque Nacional Tanjung Puting em Bornéu, as árvores gigantescas são abatidas para plantações de dendezeiros. Ao mesmo tempo as empresas de óleo de palma celebram o cultivo “sustentável” na sua reunião anual em Sumatra. E a União Européia ignora as conseqüências desastrosas da sua política de agrocombustíveis para as florestas tropicais. Uma reportagem da Indonésia

11 de Novembro de 2013, Parque Nacional Tanjung Puting no Sul da ilha de Bornéu. Nós subimos os longos rios. O nosso companheiro chama-se Komrudin. Ele é um amigo do nosso parceiro Nordin da Save Our Borneo e convidou-nos a acompanhá-lo no trabalho dele.

Há anos Komrudin empenha-se, juntamente com os indígenas, na conservação do parque nacional e também da cultura, que permite que os homens e os orangotangos possam viver pacificamente ao lado do outro, tendo suficiente espaço.

Komrudin nos contou que agora se estabelecem plantações de dendezeiros no meio do parque nacional. Quase não podemos acreditar isso. Podem-se ver prédios elegantes, um portão de madeira bonito, rótulos com fotos de orangotangos e a inscrição “O grande orgulho da Indonésia, Parque Nacional Tanjung Puting – habitat dos orangotangos selvagens”.

Depois de uma viagem de meia hora, reparamos em um navio enorme com jovens dendezeiros. Nós seguimos os botes pequenos que transportam as plantas jovens para a terra...

Terra destruída, fontes secadas – aqui crescia antigamente floresta tropical

Komrudin apresenta-nos Bujok. Ele é Dayak e tinha aqui a sua cabana. Agora há só devastação ao redor dele. “Já não temos nem água para beber”, ele conta-nos. Por causa do estabelecimento das plantações e da drenagem das turfeiras, os poços estão vazios e a floresta como fornecedor de alimentos sumiu.

Apesar do calor insuportável continuamos a andar pela terra destruída. Queremos chegar ao limite da floresta, mas já depois de pouco tempo somos detidos. Homens com ombros poderosos ameaçam Komrudin. “Por que é que você traz estas pessoas aqui?”, perguntam-lhe. “Queremos as plantações de dendezeiros! Se não desaparecem imediatamente, você já não terá que tentar encontrar a sua família. Você sempre causa algum problema. Também temos espingardas – vá passear!”

Um outro homem dirige-se a nós e diz: “Nós somos os proprietários verdadeiros dessa terra. Queremos as plantações de dendezeiros. Não é verdade o que esse Dayak os contou há pouco. Aqui nunca havia floresta. Estes eram os nossos campos.” Os cepos dizem o contrário.

Cada vez mais homens surgem das barracas, musculosos e com sotaque javanês. Afim de proteger Komrudin dizemos: “Somente queríamos ver a floresta e os orangotangos, perdemo-nos obviamente.”

“Oh!” é a resposta. “Realmente perderam-se então, a área aqui não é Parque Nacional. Nós levamo-los ali. Por favor, voltam para o seu bote imediatamente. Isto é a nossa terra, pertence à plantação de dendezeiros da Bumitama Gunajaya Agro (BGA).”

Com a perda da floresta as pessoas também perderam o trabalho delas

Entretanto os nossos barcos tem chegado. Todos têm medo. É que estes homens ameaçaram todos com armas e golpes. Todo o trabalho de Komrudin está arruinado. Tinha colocado todo o seu empenho para que os habitantes da floresta e os conhecimentos deles sejam integrados no parque nacional. Para que nenhum árvore possa ser abatida sem o consentimento dos outros. Para que seja documentado exatamente onde se podia cortar madeira mantendo a floresta. E para que ninguém apanhe os orangotangos.

Muitos dos indígenas tinham trabalhado como guias turísticos, explicando o seu ambiente e a natureza aos visitantes, sem fazer dano à floresta. Agora já não há trabalho, a floresta na sua terra ancestral está destruída. O parque nacional foi dividido em zonas onde os indígenas podem viver ou não. Onde nós estamos fica agora a terra que foi dada aos autóctones: deserto completo.

Voltamos a Kumai. No escritório dele Komrudin mostra-nos os documentos que provam que a empresa de produção de óleo de palma não possui nenhuma permissão. Komrudin e os amigos dele têm denunciado a filial da BGA várias vezes, entre outras coisas por causa da morte de orangotangos. Quatro antropóides foram encontrados na área desmatada. Mas não aconteceu nada. Os processos pararam no labirinto do sistema jurídico indonésio. E a empresa continua a desmatar.

Milhares de indígenas manifestam-se contra a máfia de óleo de palma

Enquanto nós andamos à procura de floresta intata no Parque Nacional Tanjung Puting, milhares de escravos indígenas de óleo de palma estão no camino a Medan em Sumatra. Da mesma forma que os nossos parceiros Nordin e Feri Irawan, eles querem protestar aqui contra as mentiras da máfia de óleo de palma. Esta tem a sua reunião anual do certificado de óleo de palma “Mesa Redonda de Óleo de Palma Sustentável” (RSPO) no melhor hotel da cidade – pela primeira vez em um país producente de óleo de palma.

Em 12 de Novembro de 2013 quase 5 mil pessoas manifestavam-se a favor da abolição da RSPO, porque empresas como Wilmar, BGA e IOI encontraram uma ferramenta maravilhosa neste lobby de branqueamento ecológico. “Mentirosos, traidores, assassinos de Paraquat” está escrito nos cartazes dos manifestantes. Paraquat é um herbicida altamente tóxico que prejudica os rins, o fígado e o aparelho respiratório e pode provocar câncer e a doença de Parkinson. Por isso a substância está proibida em 32 países; mas não na Indonésia.

A empresa de óleo de palma Wilmar expulsa habitantes da sua terra para enormes monoculturas, destrói a natureza e promove o Paraquat. O óleo de palma é responsável por violações de direitos humanos, exploração e a destruição das florestas tropicais. E a RSPO também é culpada.

Através de selos verdes as plantações continuam a estender-se

“Mais de dez anos de óleo de palma 'sustentável' resultaram somente na extensão das plantações e na destruição das florestas”, diz Nordin da organização ambientalista e de direitos humanos Save Our Borneo durante a manifestação.

Os representantes da indústria de óleo de palma e de algumas ONGs apóiam-se angustiadamente na parede da sala de reunião quando a manifestação surge em frente das enormes janelas do hotel. Eles ignoram simplesmente os protestos, não se menciona nada nos comunicados de imprensa. O lema deles: não mostrar nenhuma reação e anunciar, em vez disso, solenemente que até 2015 existirá só óleo de palma sustentável.

No dia seguinte o porta-voz da RSPO delira com os grandes progressos da indústria. Em uma sala o WWF, a Unilever e alguns agricultores recrutados comunicam com grande alarido: agora há óleo de palma de pequenos agricultores! Mas não se diz nada sobre o fato de que estes agricultores encaram centenas de indígenas expulsos por Wilmar.

ONGs locais, que participem na manifestação, temem que, no futuro, já não sejam apoiadas por grandes organizações de caridade como a Oxfam.

“Temos que pensar positivamente”, diz o porta-voz e nos dá uma folha de papel. “Agora nós mesmos somos bem sucedidos na produção de biocombustíveis. A empresa finlandesa Neste Oil é a primeira cujo biodiesel está produzido completamente à base de óleo de palma certificado e cumpre assim os critérios da UE. Estamos muito orgulhosos disso!”

Porém, a Neste Oil compra a matéria-prima do grupo IOI, que faz parte da empresa BGA, assim como da Wilmar. A RSPO é uma farsa que representa, ano após ano, a mesma peça - como um teatro de sombras. Mas a UE reconhece o certificado e usa-o para aumentar a inserção obrigatória de agrocombustível.

E no Parque Nacional Tanjung Puting o grupo BGA continua a desmatar a floresta.