Aumenta o número de ambientalistas assassinados, diz estudo

Mirivic Tarsila Danyan, coberta por um véu, em frente de área de floresta desmatada nas Filipinas Em dezembro de 2017, o marido e o pai de Mirivic Tarsila Danyan foram assassinados pelo Exército, porque queriam defender a terra local contra a ampliação de plantações de café nas Filipinas. (© Thom Pierce/Guardian/Global Witness/UN Environment)

10 de set de 2018

207 ambientalistas foram assassinados em 2017, que foi o ano mais mortal desde que a organização ambiental e de direitos humanos Global Witness começou a publicar estudos a respeito.

Era acampando pacificamente que os índios da etnia Gamela, no estado do Maranhão, manifestavam-se contra o desmatamento e o roubo da terra legitimamente deles. Foram fazendeiros de soja e pecuaristas que, ilegal e violentamente, desmataram a terra indígena e dela tomaram posse.

Em abril de 2017, os ânimos acirraram-se por causa de um brutal assalto no acampamento dos nativos. Primeiro, os indígenas foram alvos de xingamentos como “ladrões” e “ladrões de terra” pelo WhatsApp, enquanto um parlamentar federal incitava ao ódio pelo rádio, soltando os cachorros por meio de apelos à violência e de racismo. Pouco depois, um grupo de pessoas organizou um churrasco e uma bebedeira.

Essa noite terminou com dezenas de pessoas armadas, que, selvagemente, tomaram de assalto os indígenas Gamela, atirando neles com armas de fogo e esfaqueando-os. Resultado da barbárie: 13 nativos gravemente feridos hospitalizados com ferimentos de balas de revólver, cortes no corpo e mãos decepadas.

Essa barbaridade contra indígenas e ambientalistas, infelizmente, não são casos isolados, e muito frequentemente, acabam em morte.

A comida no nosso prato, o anel de ouro em nosso dedo, a madeira de nossos móveis: por trás de produtos de consumo cotidiano esconde-se, frequentemente, violência, segundo o estudo de 72 páginas da Global Witness. Enquanto o agronegócio prospera, a floresta tropical é desmatada e o lucro de mineradoras globais cresce, indígenas e ambientalistas vão ficando cada vez mais expostos a ataques cada vez mais brutais.

Com isso, com relação a 2016, dobrou o número de pessoas que foram assassinadas porque, por exemplo, protestavam contra o agronegócio envolvendo óleo de palma, soja, café , frutas tropicais e cana-de-acúcar e criação de gado bovino. Contabilizando 46 ambientalistas assassinados, a agricultura supera a mineração e a indústria petrolífera, estas últimas com 40 mortos na sua conta; enquanto a caça e as derrubadas ilegais empatam, contando, cada uma, com 23 assassinatos. Para piorar, a Global Witness ainda relata sete massacres nos quais várias pessoas foram assassinadas, ao mesmo tempo.

O Brasil, com 57 ambientalistas assassinados – a maior parte deles, na região amazônica, é o trágico líder neste deprimente ranking da violência, como já o tinha sido no ano anterior. O segundo lugar é ocupado pela Colômbia, com 27 homicídios. O terceiro lugar fica com o México, com 15 assassinatos, seguidos por Honduras e Nicarágua, com 9 assassinatos cada um e o Peru, com 8 homicídios. Assim, de longe, a América Latina é o continente mais mortal para indígenas e ambientalistas.

Na Ásia, a liderança é das Filipinas, que contabiliza 48 assassinatos na lista macabra. A violência lá dominante é incitada por meio da agressiva política anti-direitos humanos do Presidente Duterte e da presença militar em áreas ricas em matérias primas. Na África, a República Democrática do Congo, com 12 assassinatos, é o país mais perigoso para ambientalistas.

E estes números são apenas a ponta do iceberg, porquanto é bastante difícil e dispendioso apreender e analisar o pano de fundo dos assassínios em grotões escondidos da Terra. Além disso, não apenas latifundiários, firmas e conglomerados criminosos ameaçam as pessoas que legitimamente lutam pela sua terra e pela conservação da natureza – um alto número de homicídios vai para a conta das forças do Estado. E assim, muitos desses homicídios e de suas circunstâncias não são jamais esclarecidas e os assassinos continuam vivendo tranquilos, em segurança.

Também um país europeu entrou nessa triste estatística: na Espanha, dois guardas florestais foram alvejados por tiros de um caçador, disparados quando aqueles lhe pediram que o último lhe exibisse a sua licença para caçar. Os órgãos públicos, agora, estão estudando proteger os guardas florestais com coletes à prova de bala, bem como a armá-los.

“Levamos pancadas, somos ofendidos e não conseguimos apoio algum. Os órgãos competentes simplesmente desviam o olhar”, é o que um guarda florestal disse ao The Guardian. "Como guardiões, necessitamos urgente do governo para garantir a nossa segurança. Nós trabalhamos para proteger uma coisa, mas ninguém trabalha para nos proteger. Estamos completamente ao deus-dará".

Fontes:

https://www.globalwitness.org/en/campaigns/environmental-activists/at-what-cost/

https://www.globalwitness.org/documents/19392/Defenders_report_layout_AW2_lowres.pdf

https://www.theguardian.com/environment/2018/jan/19/a-rabbit-always-has-to-run-spanish-rangers-fear-for-lives-after-double

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/06/politica/1494107739_378228.html

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/no-maranhao-barbarie-contra-os-indios-gamela

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/05/1880160-ataque-deixa-mais-de-dez-indios-feridos-e-com-maos-decepadas-no-ma.shtml

https://www.dn.pt/lusa/interior/pelo-menos-207-defensores-do-ambiente-mortos-em-2017---global-witness-9629066.html