Grilagem não é crime?

18 de fev de 2010

As prisões de dirigentes do MST em São Paulo que ocorreram no mês de janeiro, parecem estar mais em sintonia com interesses políticos do que com a justiça. A cobertura da imprensa enfatizou a suposta destruição promovida pelo MST em uma fazenda de laranjas no interior de São Paulo, mas não discutiu o fato dessas terras terem sido griladas pela empresa multinacional Cutrale (empresa associada à Coca-Cola), pois estas terras aonde se encontra a fazenda de laranja pertencem à União, República Federativa do Brasil.

As prisões de dirigentes do MST em São Paulo que ocorreram no mês de janeiro, parecem estar mais em sintonia com interesses políticos do que com a justiça. A cobertura da imprensa enfatizou a suposta destruição promovida pelo MST em uma fazenda de laranjas no interior de São Paulo, mas não discutiu o fato dessas terras terem sido griladas pela empresa multinacional Cutrale (empresa associada à Coca-Cola), pois estas terras aonde se encontra a fazenda de laranja pertencem à União, República Federativa do Brasil. A fazenda Santo Henrique na verdade conhecida como fazenda Capim, onde a Cutrale se encontra, permaneceu invadida entre setembro e outubro do ano passado. O MST afirma que foram derrubadas 242 plantas neste período, enquanto a Cutrale chega ao numero de 7.000 pés de laranja estavam destruídos. Por conta disto a polícia civil de Bauru (SP) prendeu no começo deste mês nove pessoas ligadas ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que teriam participado da invasão da fazenda de laranjas da Cutrale, no final do ano passado. O MST divulgou nota em que relata preocupação com a operação da Polícia Civil. Segundo relatos de militantes os policiais “cercaram casas e barracos, prenderam pessoas e promoveram o terror em algumas comunidades, além de apreender pertences pessoais de muitos militantes". Após Audiência em Bauru no dia 03/02 e ato Contra a criminalização dos Movimentos Sociais”, realizado no dia 10/02 na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro de São Paulo, foi anunciada a soltura dos Sem Terra que estavam sob prisão preventiva desde do dia 26 de janeiro. Mas estes permanecem como réus do processo que se encontra em andamento no judiciário. Dentro do Complexo Monções (terras da União), onde se localiza a fazenda Capim ou Santo Henrique, vivem milhares de famílias sem-terra que há anos passam dificuldades. “Na região há 200 mil hectares de terras da União que vêm sendo sistematicamente griladas”. Conforme afirma o professor de Geografia Agrária da USP, Ariovaldo Umbelino baseando-se no último Censo Agropecuário de 2006. “São terras públicas que deveriam ser utilizadas para a reforma agrária, mas permanecem sobre controle ilegítimo da transnacional Sucrocítrico Cutrale.. Uma empresa de exportação de laranjas que controla cerca de 60% do mercado mundial de laranja. É a maior empresa do mundo neste ramo, pois é fornecedora exclusiva da Coca-Cola mundial, sua associada (joint-venture)”. Empresas como a Cutrale patrocinam e financiam eleitoralmente a grande imprensa e a maioria dos políticos, que portanto defendem os mesmos interesses da empresa. O intuito da ocupação da fazenda grilada Capim, em outubro de 2009, era de chamar a atenção para grilagem feita pela transnacional Cutrale. As ocupações denunciavam a parcialidade da Justiça e do Executivo, e a lentidão em recuperar áreas da União que foram griladas. Órgãos estes que se mostraram bastante ágeis na hora de reprimir e criminalizar os trabalhadores rurais sem-terra. A Cutrale negou que a fazenda seja "grilada" e disse que sua situação é regular. A questão está em julgamento. Segundo o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), a área da fazenda, entre os municípios de Iaras e Borebi, está em terras públicas de um antigo núcleo de colonização da União, datado do início do século 20. O que temos visto na mídia nos últimos tempos é um bombardeio de acusações contra um movimento legítimo de pessoas que lutam para se manter no campo, viver e produzir , ao invés de se moverem em direção as já super-inchadas cidades brasileiras . Enquanto isso o Estado, associado à grande imprensa e ao agro-negócio promovem um modelo de monocultura agrícola excludente e insustentável, que contribui para o desequilíbrio ambiental e social. A Cutrale ainda foi acusada semana passada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de explorar a mão-de-obra terceirizada na colheita da fruta em suas fazendas. Os trabalhadores estão sem registro contratual trabalhando e em condições precárias de trabalho, sem qualquer equipamento de produção individual, sem instalações sanitárias e sem as pausas, que são tão necessárias para esse trabalho. Ou seja, é este o tipo de empregador que vem sendo defendido pela mídia como vitima de terroristas do campo. Os ruralistas do agro-negócio são os grandes favorecidos no Brasil, pois além de receberem incentivos fiscais, anistia de pagamentos e incentivos de exportação, ainda grilam terras públicas, sem serem julgados por isso. Conforme o dirigente do MST, João Pedro Stedile, movimentos sociais realizarão uma campanha para estimular o boicote aos sucos da Coca-Cola, principal compradora da Cutrale, porque eles têm "gosto de injustiça e repressão". Para mais informações:: http://www.mst.org.br/node/9010