Chile: Chega de roubar água do povo para exportar abacate!

Reservatórios de água da indústria abacateira no Chile Piscinas com água roubada do povo para produzir abacate no Chile, em meio à seca vegetação (© Movimiento por el Agua y los Territorios MAT)

Abacate está na moda – os países da UE importaram quase 700 mil toneladas em 2019. Nas áreas de cultivo, porém, as consequências são fatais. No Chile, a indústria abacateira comprou os direitos sobre a água e agora extrai toda a água disponível, usando-a nos abacatais, sem deixar uma gota sequer para os moradores da região.

Apelo

Para: Presidente da República do Chile, Sebastián Piñera; Ministério do Meio Ambiente do Chile, Ministra María Carolina Schmidt Zaldívar; Governo provincial de Petorca; Diretor-Geral do Departamento das Águas (DGA)

A água é um direito fundamental: revogue-se já a lei da água chilena de 1981, limite-se o cultivo de abacate e garanta-se o acesso à água para os moradores.

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As montanhas na província Petorca - situadas a 150 km ao norte de Santiago, a capital do Chile - são extremamente secas. Por isso, os locais, já desde tempos ancestrais, vivem no vale de Talsolen, onde os rios dos Andes possibilitam a agricultura.

No entanto, já há alguns anos, milhões de abacateiros estão disputando a água com a população local. Em 8 mil hectares de terra, firmas plantam árvores voltadas para exportação, a maior parte delas abacateiros.

Filas infinitas de abacateiros arrastam-se dos vales às beiras das montanhas. Cada abacateiro precisa de cerca de 600 litros de água por semana. Com as bombas de irrigação, os empresários do agronegócio sugam a água de poços profundos em lagos irrigatórios.

Com isso, os rios da vizinhança já secaram, a vegetação mirrou e os campos dos pequenos lavradores deixaram de ser utilizados. Já há 10 anos a região está condenada a uma mega-seca. Também as águas subterrâneas estão esgotadas. Segundo o departamento de águas competente, as reservas de água reduziram-se em 80%.

A população reclama da subtração da água. Isso porque as autoridades concedem às empresas abacateiras direitos sobre as águas, e muitos poços são ilegalmente perfurados. Os interesses do setor frutícola são aparentemente mais importantes que os direitos dos moradores.

Agora, o governo está distribuindo 50 litros de água para cada morador por dia, em caminhões-cisterna. Essa quantidade, obviamente, não basta para uma vida digna, suficiente para cobrir necessidades básicas e possibilitar a agricultura tradicional.

Organizações como o Movimento por el Agua y los Territorios e e a Escola de Ecologia Agrária Germinar querem devolver a água para as pessoas e para a natureza. Elas reivindicam de mais de 50 conselhos de água comunitários que estes ajam para uma distribuição mais justa da água.

Mais informações

Produção e consumo de abacate no mundo

Essa fruta oleosa é propagandeada como especialmente saudável e como “Superfood”. De acordo com as informações da FAO, no ano de 2017, a produção mundial de abacates ficava em 5,7 milhões de toneladas. As exportações globais de abacate alcançaram 2,2 milhões de toneladas, no ano de 2019, de acordo com os dados do setor. O principal comprador são os EUA com uma parcela de 52%, seguidos dos países-membros da UE, com 28%.

O maior produtor global de abacates é o México, com mais de 2 milhões de toneladas por ano, seguido pela República Dominicana e pelo Peru. O Chile produziu, no ano de 2018, cerca de 245 mil toneladas de abacate. De acordo com os dados da Associação Chilena da Indústria Frutícola, o Chile exportou, em 2018 143 mil toneladas de abacate, sendo 50% da espécie Hass. 60% das exportações tiveram como destino a Europa.

Segundo a Organização Internacional do Abacate (Word Avocado Organization – WAO), a demanda por abacate vem crescendo 4,6% ao ano. Conforme os dados locais do setor frutícola, no Chile, o crescimento médio é de 12% ao ano. Na União Européia, a WAO prevê que sejam vendidas, no ano de 2020, 750 mil toneladas de abacate provindo de diferentes países.

Na Alemanha, o consumo de abacate, no ano de 2018, segundo a Statista, foi de 94 mil toneladas, o que corresponde a cerca de 1,1 kg por pessoa por ano. Conforme a WAO, o consumo na França foi de 122 mil toneladas (1,8 kg por pessoa por ano); na Grã-Bretanha, o consumo foi de 98 mil toneladas. Entre os importadores líquidos de abacate estão os Estados Unidos, com 1,09 mil toneladas por ano (3,4 kg por pessoa por ano), que é o maior consumidor.

A região espanhola de Andaluzia produziu em 2019, segundo os dados do setor, 61 mil toneladas de abacate. O consumo no país em 2018 chegou a mais de 74 mil toneladas em 2018. O que corresponde a cerca de 1,6 kg por pessoa por ano.

De acordo com os dados da WAO, para o cultivo são necessários 1000 litros de água para cada quilograma de abacate.

Carta

Para: Presidente da República do Chile, Sebastián Piñera; Ministério do Meio Ambiente do Chile, Ministra María Carolina Schmidt Zaldívar; Governo provincial de Petorca; Diretor-Geral do Departamento das Águas (DGA)

Exmo. Sr. Presidente Sr. Piñera,

Exma. Sra. Ministra do Meio-Ambiente Sra. Schmidt Zaldívar,

Exma. Sra. Governadora de Petorca, Sra. Paz Santelices,

Pequenos municípios como Calle Larga, Chalaco, Chincolco, Pedegüa, Hierro Viejo, El Francés, Pedernal, Las Palmas, Quebrada de Castro e outros pertencentes à região administrativa de Petorca não tem acesso à água adequado para o consumo humano e para a irrigação de suas culturas agrícolas tradicionais.

Isso porque a indústria abacateira está monopolizando a água que é negada para a população. A política chilena de extração dos recursos naturais, na qual se baseiam também outros setores dirigidos à exportação, como a mineração, a engenharia florestal, a pesca e a energia, reprime os municípios e destrói a natureza.

É urgentemente necessário que vocês conheçam o significado do ciclo da água para a natureza e para os ecossistemas, bem como outras formas de exploração da água. Para este fim, vocês precisam, primeiramente, como uma das medidas básicas para a “desprivatização” (isto é, a reestatização) da água no Chile, revogar a Lei da Água de 1981. Essa lei, aprovada durante a ditadura militar, privatizou e criou um mercado para este bem público básico e garante, para empresas, direitos demasiados sobre a água.

Neste contexto, acreditamos que é imprescindível considerar a natureza como um sujeito político que tem de ter seus direitos respeitados. Considerar a água como um bem comum nacional é função essencial da administração pública, sendo necessário que sua administração se dê no âmbito dos municípios.

É preciso que a nova Constituição Chilena e uma nova lei garantam que a água tenha status jurídico de direito humano fundamental e de direito à natureza. Ambos precisam proteger as pessoas, suas comunidades, a terra e sua diversidade biológica. É para este fim que se engajam o Movimento pela Água e Territórios (Movimiento por el Agua y los Territorios - MAT) e a Escola de Agroecologia Geminar do município de Petorca.
Para que estes objetivos possam ser realizados, é preciso que as atividades de extração da água da indústria abacateira e cítrica seja imediatamente suspensa no município de Petorca.

Atenciosamente

Esta petição está disponível, ainda, nas seguintes línguas:

126.206 participantes

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