Não deixe que Selous, patrimônio da humanidade, seja derrubada!

Elefante africano A população de elefantes em Selous caiu consideravelmente (© Rettet den Regenwald)

O presidente da Tanzânia quer liberar para o desmatamento 1500 km² de floresta e savana: um paraíso de elefantes e leões. 2,6 milhões de árvores deverão dar lugar para uma barragem na área tombada pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Os danos ecológicos seriam irreparáveis. Por favor, ajude-nos a manter Selous.

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Para: Presidente da Tanzânia, Sr. John Pombe Joseph Magufuli

A Reserva de Selous é um tesouro ecológico no qual vivem elefantes e leões ameaçados. Por favor, conservem esse patrimônio da humanidade tombado pela UNESCO.

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O presidente da Tanzânia, John Magufuli, quer liberar para o desmatamento 1500 km² de floresta e savana. 2,6 milhões de árvores deverão dar lugar para uma barragem na área tombada pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Os danos ecológicos seriam irreparáveis. Por favor, ajude-nos a manter o patrimônio de Selous.

No momento, ainda há elefantes, hipopótamos e leões a andar de mansinho na Reserva de Selous, onde a vida pulsa. Recentemente, rinocerontes foram lá avistados. A barragem na Garganta de Stiegler seria um desastre ecológico. No coração do patrimônio mundial da UNESCO, ela barraria o Rio Rufiji.

O presidente Magufuli quer criar fatos consumados, deixando que sejam derrubadas 2,6 milhões de árvores. Deverão ser derrubados 1500 km² de florestas e savanas. Em meados de maio, várias empresas se candidataram para a empreitada, que deverá lhes trazer 53 milhões de euros pela venda da madeira.

Ambientalistas, temendo a destruição definitiva de Selous, são contra o projeto. A caça ilegal já vem reduzindo, drasticamente, a população de elefantes. Uma mina de urânio ameaça a destruir uma parte da reserva. A UNESCO, por isso, já colocou Selous na lista dos patrimônios da humanidade ameaçados. Em fevereiro, ela enviou ao governo uma carta explosiva, mas  sem efeito.

O governo anunciou o começo da construção para julho, embora o financiamento seja incerto. O presidente Magufuli quer ser visto como “fazedor”, críticas não lhe interessam. Um membro do governo até já ameaçou opositores do projeto com cadeia.

 A população e a economia da Tanzânia necessitam, claro, de uma rede de energia elétrica melhor. No entanto, a barragem não é a solução. Por favor, assine nossa petição pela proteção da Reserva de Selous. Não podemos deixar que 2,6 milhões de árvores sejam derrubadas por causa desse projeto absurdo!

 

Mais informações

Selous Game Reserve

Selous Game Reserve foi declarada patrimônio natural da humanidade pela UNESCO em 1982. Com 51.200 km2, ela é maior que a Suíça. A medida do valor ecológico dessa área é dada pelo “pulso sazonal” do Rio Rufiji, variando entre excesso de água, cheias e secas que encolhem em lagos nos braços do rio, ou até secam completamente. Esse reinado é tão variado que engloba desde extensas florestas de miombo, florestas de galeria, pradarias, ecossistemas de cânions e até pântanos.

Mais de 2100 espécies de plantas, até agora, já foram identificadas em Selous, mas o número deve ser ainda mais alto. Segundo a UNESCO, mais de 100.000 elefantes (Loxodontha africana) e 2130 rinocerontes (Diceros bicornis) vivem na reserva. Ademais, ela é morada para a maior população mundial de hipopótamos (Hippopotamus amphibius), com 18.200 animais, bem como de búfalos africanos (Syncerus caffer) com quase 205.000 exemplares. 350 espécies de pássaros já foram contadas pelos ornitólogos.

A área de proteção está fincada no ecossistema de Selous, cuja área é de 900.000 km2, sendo funcionalmente conectada com a Reserva Nacional do Niassa, em Moçambique.

Caça ilegal

A caça ilegal é um dos problemas centrais da Selous Game Reserve.  Desde que a área foi declarada patrimônio mundial da humanidade, em 1982, o número de elefantes, em decorrência de caça ilegal, já caiu em 90%.

Danos provocados pelo projeto de barragem

Os danos ecológicos não se restringem à área da barragem propriamente dita, afetando áreas bem maiores: mais de 230 km de estradas de acesso e acomodação para milhares de trabalhadores atraem colonos e lavradores que desmatam a terra e lá se instalam a título permanente. Os caçadores ilegais de elefantes e hipopótamos passam a ter o acesso facilitado, e o perigo para os animais cresce claramente.

Por conta da barragem, faltariam à jusante 16,6 milhões de toneladas de sedimentos que, até agora, o rio conduz por ano. A fertilidade do solo cai. Ao mesmo tempo, a erosão aumenta. A hidrologia e biologia do sistema fluvial alteram-se estruturalmente. Os braços do rio, que durante as secas se transformam em lagos, possivelmente secam por completo, passando a faltar para os animais como fonte de bebida. O delta encolhe, e com isso, também encolhe um dos maiores manguezais da Terra. 

O projeto de barragem também ameaça a área de proteção Rufiji-Mafia-Kilva Marine Ramsar, uma segunda área globalmente significativa.

Projeto de barragem

A usina hidrelétrica na Garganta de Stiegler deverá ter uma potência de 2.100 MW. A barragem principal deverá ter 126 m de altura 700 m de largura, quatro barragens laterais deverão ter cerca de 13,9 km de comprimento. A represa deverá inundar 1200 km2 e seria a maior da África oriental.

 Os custos são estimados em 3 bilhões de euros e o tempo de construção, em 36 meses. Ambos parecem ilusórios. Ainda é desconhecido o banco que vai financiar esse projeto, e qual empreiteira vai realizá-lo. A empreiteira brasileira Odebrecht – que tinha impulsionado o projeto nos últimos anos - está envolvida até o pescoço em um escândalo de corrupção que fez o Brasil mergulhar em uma crise política sem precedentes.

Ainda não existe nenhum estudo de neutralização do impacto ambiental do projeto. Por isso, o desmatamento de 1500 km2 seria ilegal, violando as regras da UNESCO. Mas, como os desmatadores adquiririam a licença para desmatar do Estado, eles poderiam vender a madeira legalmente. Uma situação absurda.

Rede de energia elétrica insuficiente

A Tanzânia sofre de enorme déficit no provimento de energia elétrica. Conforme o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), apenas 10% dos domicílios estão conectados à rede de energia elétrica. No momento, as usinas do país tem uma capacidade total de geração de energia de 1.700 MW; com o projeto, a capacidade seria duplicada.

Dinheiro do contribuinte alemão

 A Alemanha apóia a administração sustentável da área de proteção de Selous com 18 milhões de euros. O dinheiro para a vigilância aérea da área de proteção e fomento para a população em torno de Selous é transferido pelo Banco KfW. Envolvidos estão o WWF e a Sociedade Zoológica de Frankfurt.

Caso a Tanzânia insista na construção desta barragem, o sentido deste apoio tornar-se-ia duvidoso.

 

Carta

Para: Presidente da Tanzânia, Sr. John Pombe Joseph Magufuli

Exmo. Sr. Presidente John Pombe Joseph Magufuli,
Exmas. Sras. e Sres.,

A Tanzânia, com razão, pode orgulhar-se de seu patrimônio natural. Por favor, mantenham esta extraordinária tradição para o bem da população e da humanidade inteira.

A Tanzânia é dona da Selous Game Reserve, um tesouro extraordinário de significado mundial. A UNESCO, já em 1982, declarou a área como patrimônio da humanidade. Mas, infelizmente, desde 2014, Selous já está na lista do “patrimônio mundial em perigo”. Além da crescente caça ilegal de dentes de marfim, o projeto de construção de uma barragem na Garganta do Stiegler ameaça, consideravelmente, a área de proteção.

Mesmo assim, o Departamento de Exploração de Florestas da Tanzânia (TFS) liberou 1500 km2 de savanas e florestas para desmatamento. A derrubada de 2,6 milhões de árvores já causaria enormes danos ambientais, enquanto o financiamento do projeto é incerto, não existindo qualquer estudo sobre a neutralização do impacto ambiental da obra.

Em conseqüência, estamos pedindo três coisas ao governo da Tanzânia:
1) que impeça a derrubada de 2,6 milhões de árvores;
2) que apresente um estudo sobre a neutralização do impacto ambiental do projeto de construção de uma barragem na Garganta do Stiegler;
3) que mantenha Selous com uma população de elefantes saudáveis e sua original biodiversidade.

A Tanzânia é uma nação soberana que assume responsabilidade por sua população, inclusive no que tange ao fornecimento de energia elétrica. No entanto, destruir uma das mais significativas áreas de proteção da natureza seria uma decisão de longo prazo que jamais poderia ser revertida.

Por isso, pedimos ao governo da Tanzânia que honre sua promessa de manter o tesouro de Selous para o mundo.

Atenciosamente

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